Mini-história: "Aquela rapariga" (5ª Parte)

A recordação da revelação - bem, quase revelação -, do nosso segredo em frente da turma bailava-me na cabeça assim como o pedido de desculpas repentino.
O dia estava sombrio, o céu estava revestido de nuvens escuras que tapavam por completo o sol, a chuva durante a noite ainda não tinha secado, o que intensificava os aromas que flutuavam no ar. Respirei fundo tentando saborear o cheiro a pizza que deveria vir do restaurante pelo qual passei, contemplei de longe a escola que parecia majestosamente sombria, saída de um filme de terror, estava deserta e o portão da escola estava completamente aberto.
Olhei para o meu relógio de pulso, estava mais que atrasada para a aula, aumentei o passo exponencialmente até começar a correr, passei o portão e entrei no primeiro edifício, o que chamávamos de edifício principal por ser ali onde se tratavam de todo o tipo assunto relacionado com a escola.
Abordei a primeira funcionária que apanhei de passagem, perguntei-lhe se sabia onde a minha turma estava a ter aula e esta disse-me o numero da sala. Agradeci-lhe e apressei-me a mudar de edifício e a subir as escadas que me levavam à sala 20.
Entrei de rompante na sala, com um movimento desajeitado do pé, que bateu na porta impulsionou-a com força, a maçaneta escorregou-me por entre os dedos que se preparavam para a segurar firmemente e deixou que esta batesse na parede com um som estridente.
Todos na sala me encaravam,  uns com uma expressão de susto outros troçando, preparava-me para disparar milhares de pedidos de desculpa quando olhei para a secretária e reparei que a professora não estava, na secretária estavam dois rapazes que pareciam estar a entrar pelo ecrã do computador, sentei-me lá à frente ao lado dela.
Ela sorriu-me. - Olá! Entraste em grande. - proferiu sorrindo mais fazendo aparecer umas covinhas na bochecha.
Retribuí o sorriso mas antes que conseguisse falar, os rapazes qe estavam no computador da secretária começaram a exclamar inúmeras interjeições de surpresa.
-O... o... que raio é isto?? - indagavam com uma expressão de choque. - Isto não pode ser... pode? - diz um deles.
Olharam na minha direcção e entreolharam-se de seguida, levantei-me rapidamente empurrando a mesa e deixando cair algumas canetas, corri para a secretária esmagando as canetas que tinham caído, ouvi o barulho destas a estalarem e a partirem.
Ao chegar junto deles debrucei-me sobre a mesa, vejo que estavam no "youtube" a ver um video estranho, parecia pornografia, mas não era um video qualquer, era o nosso video!
O meu choque ao ver aquilo fez-me recuar e, sem querer, puxar o fio dos auscultadores deles arrancando-o, o que fez com que o som ecoa-se pela sala pelas colunas do computador, estava petrificada com o que os meus olhos viam, olhei para ela que fitava o quadro com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto que rapidamente percebi o porquê quando lhe segui o olhar.
O projector da sala estava ligado e toda a gente assistia ao video perplexos às imagens eróticas que nos tinham como protagonistas, as lágrimas saiam-me compulsivamente, queria fazer algo mas já toda as pessoas sabiam o nosso segredo que já não era possível dissimular, quando retomei consciência que não deveria ficar parada a assistir, peguei na ficha e puxei-a desligando o computador.
A sala toda estava em silêncio e os olhares saltavam de uma para a outra tentando nos examinar, queriam ver a nossa reacção para ter a certeza do que tinham visto. O telemóvel dela tocou e esta limpando as lágrimas saiu da sala em passos largos.
-Aquele filho da puta! - ouvi já do lado de fora da sala.
De seguida um grito agudo.
Corri para fora da sala para ver o que se tinha passado. O corredor estava vazio, aproximei-me das escadas e vi-a ao fundo destas caída, corri até ao fundo das escadas quase escorregando. 
O meu choro intensificou-se, esta estava estendida paralelamente às escadas, ajoelhei-me junto a ela e subi-lhe a cabeça com as duas mãos para as minhas pernas, senti algo, era quente e vermelho, era sangue que pingava da palma da minha mão.
O telemóvel dela estava caído ao lado dela e vibrava quase sem interrupção, eram mensagens que chegavam continuamente.
Limpando as lágrimas com a manga da camisola apanhei o telemóvel estava uma mensagem aberta, comecei a ler enquanto controlava as lágrimas.

"Espero que tenhas gostado da surpresa que preparei,
esta noite representou muito para mim,
espero que possamos repetir algum dia.
Com muito amor, o teu namorado!"

Uma raiva apoderava-se do meu punho, pousei o telemóvel e inclinei-me sobre ela, o meu choro recomeçou.
-Desculpa... Desculpa... - repeti vezes sem conta, não conseguia sentir a sua respiração mesmo estando cara a cara com ela.
As lágrimas escorriam-me pelo rosto e caiam do queixo para a cara dela, eu fechei os olhos e abanava a cabeça, não acreditava no que se estava a passar, era demasiado horrível para ser real, era... era... surreal.
A minha voz soava baça e rouca e a única coisa que consegui dizer foi:
-Aquele filho da puta...


~The End~

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