A frieza da Escolha
Há quem chegue ao limite.
Atinge o ponto sem retorno — aquilo a que chamam fim da linha, estrada sem
saída — onde emergem dilemas e escolhas que para muitos parecem frias.
Em tempos de desapego e ausência de empatia, sente-se o
resfriar das relações, o gelar dos sentimentos: um Inverno profundo e interior.
O mundo deixa de existir para além do “eu”.
Tamanha é a distância - não física, mas emocional – formando
um padrão que deixa marcas como um rio que aprofunda o próprio leito – lento,
inevitável, indiferente ao que encontra.
O compasso do tempo segue apressado.
Deixam para trás quem outrora lhes trazia conforto e
segurança, quem segurava a mão e dizia “vai tudo ficar bem”. O olhar frio do
passado envolve o presente num véu de incerteza.
A chama da paixão deixou apenas as cinzas.
O amor tornou-se ficção projetada nos grandes ecrãs
desprovidos de vida. Nada completa a outra metade – que já nem metade é –
apenas fragmentos de uma existência injustiçada.
A dúvida permanece: vivo para quem?
O desconhecimento do “eu” atormenta a mente de quem pensa e traz
ainda mais questões, que permanecem em silêncio, aguardam pacientes no vazio -
“serei suficiente para alguém?”
Resposta que tarda em chegar, resta contemplar o interior - o
templo que permanece erguido
entre aquilo que somos e o que desejamos ser. “Estarei certo ou errado?”.
Há um dia depois do amanhã.
As escolhas são pessoais, a reação é inevitável. O que hoje
parece o fim talvez seja apenas uma pedra no caminho - um instante no percurso
inevitável do tempo.
Resta saber: “Sabemos quem somos?”
Somos aquilo que o espelho reflete ou uma imagem moldada
pela sociedade - uma felicidade frágil, como água que congela e destrói aquilo
que julgávamos inteiro.
A maré torna-se impetuosa, uma onda de pensamentos invade a
mente.
É o momento de parar, pensar, observar – lutar para nos
mantermos à tona onde os valores são menosprezados, a empatia depreciada e a
consideração pelo “outro” desvalorizada.
O frio aproxima-se, arrefece o interior, o núcleo congela.
O inverno não chega de fora.
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