A frieza da Escolha

Livro I: “Lugar Nenhum” / Capitulo: “Inverno”

"A frieza da Escolha"

Há quem chegue ao limite.
Atinge o ponto sem retorno — aquilo a que chamam fim da linha, estrada sem saída — onde emergem dilemas e escolhas que para muitos parecem frias.

Em tempos de desapego e ausência de empatia, sente-se o resfriar das relações, o gelar dos sentimentos: um Inverno profundo e interior.

O mundo deixa de existir para além do “eu”.

Tamanha é a distância - não física, mas emocional – formando um padrão que deixa marcas como um rio que aprofunda o próprio leito – lento, inevitável, indiferente ao que encontra.

O compasso do tempo segue apressado.

Deixam para trás quem outrora lhes trazia conforto e segurança, quem segurava a mão e dizia “vai tudo ficar bem”. O olhar frio do passado envolve o presente num véu de incerteza.

A chama da paixão deixou apenas as cinzas.

O amor tornou-se ficção projetada nos grandes ecrãs desprovidos de vida. Nada completa a outra metade – que já nem metade é – apenas fragmentos de uma existência injustiçada.

A dúvida permanece: vivo para quem?

O desconhecimento do “eu” atormenta a mente de quem pensa e traz ainda mais questões, que permanecem em silêncio, aguardam pacientes no vazio - “serei suficiente para alguém?”

Resposta que tarda em chegar, resta contemplar o interior - o templo que permanece erguido
entre aquilo que somos e o que desejamos ser. “Estarei certo ou errado?”.

Há um dia depois do amanhã.

As escolhas são pessoais, a reação é inevitável. O que hoje parece o fim talvez seja apenas uma pedra no caminho - um instante no percurso inevitável do tempo.

Resta saber: “Sabemos quem somos?”

Somos aquilo que o espelho reflete ou uma imagem moldada pela sociedade - uma felicidade frágil, como água que congela e destrói aquilo que julgávamos inteiro.

A maré torna-se impetuosa, uma onda de pensamentos invade a mente.

É o momento de parar, pensar, observar – lutar para nos mantermos à tona onde os valores são menosprezados, a empatia depreciada e a consideração pelo “outro” desvalorizada.

O frio aproxima-se, arrefece o interior, o núcleo congela.

O inverno não chega de fora.

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