O que não te mata, deixa-te surdo ou, pelo menos, quase...

Fechei a cortina com um enorme ranger metálico, a luz do sol era quente, demasiado confortável, demasiado aconchegante mas, como contra, reflectia no visor do tablet e tornava insuportável olhar e tentar decifrar o que tinha escrito. Uma manhã digna de se apreciar pois o Inverno não estava a dar tréguas e a temperatura descia a cada semana mas desta vez a  segunda-feira começava com um dia de sol, bem, lá se vai o casaco e o cachecol. A travagem repentina do autocarro requis medidas de protecção e, com isto, quero dizer o uso da palma da mão no banco da frente de modo a não ser projectado de cara contra o banco.
Entra alguém que imediatamente cumprimenta a parte dianteira do autocarro com a sua voz irritante, pelo menos tem esse efeito em mim.
Sentou-se na fila de bancos ao meu lado e continuou a disparar factos desinteressantes sobre o que havia feito, se este tivesse um botão de volume teria de o baixar para metade do qual ele estava pois mesmo os feirantes conseguiam fazer uso do seu aparelho vocal de forma controlada. Ignorar todo aquilo era a única solução e, com isto digo, aumentar o volume da musica para se sobrepor à voz irritante e esganiçada do mais recente passageiro.
A viagem ia apenas a metade e o destino não parecia querer dar tréguas, primeiro um musical de berros e gritos de estudantes do ensino básico ansiosos para se fazerem ouvir da traseira do autocarro até à frente do mesmo, a falta de harmonia e sincronia, bem como má afinação sobrepunham-se à música que estava a ouvir.
Dentro de mim crescia um sentimento de revolta e angústia, uma vontade de me levantar e num tom severo mandar-los calar surgia enquanto que o ruído do autocarro e as vozes deles criavam uma amálgama insuportável. Para dizer a verdade, o que quer que fizesse não ia resolver nada, apenas ia chamar a atenção para mim durante alguns momentos.
Quando finalmente consigo a paz desejada, sou presenteado com o interlocutor de rádio mais irritante de todos os tempos, um dos que adoram falar sozinho e que adora dar as notícias mais insignificantes com o maior detalhe possível, vejamos um interlocutor de rádio é isso mesmo, fala para um microfone mas imagina que está a ter uma conversa real com uma pessoa e na hora das noticias estas soam mais a fofocas do que algo com um conteúdo informativo e de interesse.
Este pega no telemóvel e fala para quem quer que o esteja a ouvir, este tem fama de fingir que fala ao telemóvel para possa continuar o noticiário dos seus eventos e feitos pessoais, como ninguém lhe daria atenção até ao final, fingir que está ao telemóvel mas falar alto é a sua técnica, bem irritante por sinal.
Até escrever se torna insuportável com a voz dele a ecoar na minha cabeça e com a repetição de tudo o que ele diz de forma sarcástica por parte da minha mente. A mistura de tudo o que passa dentro da minha cabeça parece torcer e espremer os meus neurónios que lutam por não receber mais informação de qualquer tipo, o que me provoca uma sensação de picadas de finas agudas no cérebro, como se a cada vibração do tímpano, envia-se choques de alta voltagem à minha cabeça que me faziam estremecer de dor. Queria poder gritar e emborrachado o telemóvel que tanto o satisfazia no monólogo, seria impossível obter sossego no meio de tamanho aparato.
Felizmente com tanta raiva perdi a noção do tempo e a viajem estava na recta final, mais três paragens e iria me ver livre de tal incómodo, sentia uma enorme felicidade emanar das profundezas e brotando num suave sorriso. "Finalmente!" Pensei.
Avistei a paragem a alguns metros, agarrado ao Banco da frente levantei-me e carreguei no botão "Stop" para alertar o condutor de que deveria parar. Algum chiar de travões e uma diminuição de velocidade progressiva, apressei-me a sair da fileira de bancos para o corredor e encaminhei-me para a porta traseira ouvindo aquela voz afastar-se, finalmente sai e a porta fechou-se segundos depois.
Um sorriso formava-se enquanto começava a caminhar. Ouvi uma gargalhada peculiar e aguda, olhei para a frente e vi-o caminhando á minha frente com o telemóvel na orelha e a rir-se ás gargalhadas.
A viajem acabou mas o sofrimento não, quando tudo parece bem, nada está, enfim, sem comentários...

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