A meteorologia de hoje é: massa com queijo?

O espelho reflecte aquele que sempre me parecia ser eu, aquele que as outras pessoas veriam como sendo eu, toco na minha face para conferir se tudo é o que realmente aparenta ser.
Algo em mim parece indiciar que tem uma opinião contrária ao que os olhos vêem, imaginar-me-ia de forma diferente se nunca me tivesse observado ao espelho? É sem duvida uma questão que me intriga e me indicia a dizer que realmente me poderia imaginar de forma diferente, tudo o que vejo no espelho é demasiado superficial para me descrever, demasiado desconforme, como se a minha pele não estivesse realmente sobre o meu corpo, quase como uma máscara.
Um complexo sistema de coisas escondem-se por debaixo desta, pensamentos para além do espaço e tempo vagueiam na mente, entrelaçam-se e despedaçam-se uns aos outros competindo pela supremacia ou procurando uma relação de igualdade ou complementaridade entre eles, onde os pratos da balança determinam o mais próximo de vencer mas no entanto travam lutas infindáveis.
As vivências quotidianas representam a personalidade que se constrói ao longo da vida, são estas que moldam todo o meu "ser" contorcendo-o, esmagando-o e esticando-o até aos limites, a velocidades assombrosas.
No seu limite, a personalidade parte-se em centenas de fragmentos, uma fragmentação que ajuda a perspectivar tudo de várias formas, através dos aglomerados que os pedaços vão criando à medida que se encontram e se encaixam, formando personalidades completamente diferentes mas, por outro lado, este mecanismo cria uma dúvida constante, cada um pedaço instável da personalidade faz por se sobrepor às outras alternando-se consoante os sentimentos que prevalecem nesses momentos, sendo tão inconstantes como a meteorologia que nos surpreende hoje em dia.
Uma chuva de desilusão faz o céu nublado com uma cortina de incertezas que desaparecem á medida que todas as gotas da nossa vontade caem e se agregam em poças e formam correntes por entre as vertentes e os vales do nosso "eu", moldam os terrenos por onde passam, alterando o relevo da personalidade que nos identifica.
Desaguam no mar levando os sedimentos de desejos e medos onde se misturam e sobrepõem-se consoante o peso que estas têm em nós, algumas delas mergulhando até a grandes profundidades alcançando o subconsciente onde estagnam e consolidam em recalcos rochosos.
A tempestade acaba e de entre as nuvens aparecem pequenos filamentos de luz até o céu ficar completamente limpo e o sol brilhar, os sentimentos gelados que a tempestade trouxe aquecem e tornam-se suportáveis. Um turbilhão de perguntas aparecem, quem serei eu realmente? Saberei descrever a minha própria personalidade?
Se gosto de algo por aquele motivo, por algum sentimento que está incrustado na minha personalidade e esta foi alterada, tudo se altera.
A plasticidade do nosso "eu" é enorme e é esta o que determina os nossos gostos, uma simples tempestade emocional transforma a nossa personalidade, muda sentimentos, muda pensamentos e dogmas, muda-nos mesmo a nível do subconsciente, recorta-nos em pedaços e agrupa-os formas diferentes.
"Sempre detestei peixe mas agora adoro, não sei porque razão..." ouve-se dizer. "Adoro massa mas já experimentaste com queijo derretido? É divinal!"
Os gostos são difíceis de explicar pois implicam a sobreposição de diversas camadas de pensamentos e sentimentos que bem sedimentados por vezes são enterrados pela pressão das camadas adjacentes, sendo esquecido o porquê de tal gosto que demonstramos.
Uma coisa sei de certeza, a personalidade é inconstante, a meteorologia uma confusão, os gostos são modificáveis assim como a geosfera, se me perguntaram "que meteorologia é que estará hoje", a resposta será "massa com queijo"!

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