Mini-história: "Aquela rapariga" (3ª Parte)

Acordo com o meu próprio grito, não me conseguia lembrar ao certo o que teria sonhado, o suor pulsava dos meus poros, o meu coração batia descontroladamente, o que quer que tenha sonhado não teria sido nada agradável.
Levanto-me cambaleando um pouco, paro tentando recuperar o equilíbrio, olho de relance para o relógio, eram oito da manhã, sentia os olhos pesados como se não tivesse dormido nada. Encaminho-me à casa de banho e preparo-me para tomar um duche, estava toda transpirada e nada me iria fazer sentir melhor.
Aninhada num canto da banheira com o chuveiro pendurado no suporte, a água caia sobre mim suavemente escorrendo pelo meu corpo, dava-me uma sensação de paz e conforto, sentia-me a enfraquecer, relaxando músculo a músculo, fechei os olhos e deixei-me ficar assim durante um pouco.
- Filha, estás aí? – indagou a minha mãe batendo de leve na porta. – Está aqui uma colega tua.
-Sim mãe, já estou a sair, diz-lhe que espere um pouco. – Respondi.
“Mas como assim amiga? Eu não estava à espera de ninguém… Quem é que poderá ser tão cedo?” pensei.
Apressei-me a vestir uma camisola lilás e umas calças cinzentas que caíram enquanto remexia nas roupas penduradas no armário e penteei rapidamente o cabelo só para o desemaranhar, passei pelo meu pai que se dirigia para a casa de banho da qual ainda saia vapor do meu banho, cumprimentei-o e segui caminho até à sala.
Estaquei junto à porta da sala, podia ver por entre os vidros desta quem me aguardava, estava perplexa ao vê-la, a minha mão estacou junto à maçaneta, o que é que ela se atreveria a vir cá fazer depois do que tinha acontecido.
Abri a porta preparando uma cara de desagrado para que ela visse que não estava satisfeita por a ver, esta levantou-se ao ver-me e sorriu mas este desvaneceu-se quando ela reparou na minha expressão.
Passei ao lado dela e comecei a remexer nas revistas que estavam sobre a mesa, não estava realmente interessada em ler nenhuma mas não estava com grande vontade de olhar para ela.
Ouço-a a tentar começar a falar mas saem-lhe apenas sons, que me pareceram “hmm… eu… hamm…”.
-Que queres? – perguntei-lhe num tom ríspido, virei-me para ela. – Há algo que me queiras dizer? – encaro-a com uma expressão zangada.
-Eu… eu… gostava que resolve-se-mos as coisas… entre nós… - disse hesitando.
Não era uma coisa que eu estaria à espera, a minha expressão confusa era prova disso, fitei-a tentando controlar o impulso de ficar boquiaberta. Até à pouco tempo éramos inimigas a ponto de um mínimo puxão da linha que segurava o nosso laço de amizade rasgado se rompe-se e daí surgir uma tragédia, agora de repente ela tentava costurá-lo à velocidade da frase que pronunciava.
Os seus olhos tornavam-se avermelhados à medida que o silêncio pesava, ela desviou o olhar de mim e com uma manga limpou rapidamente os olhos, ouvi-a fungar muito baixinho como que estivesse prestes a começar a chorar.
-Depois de quase teres exposto o nosso segredo a toda a turma, queres que te perdoe? - disse-lhe com um tom severo.
-Desculpa, com tudo o que se passou, eu fiquei furiosa e acabei por fazer o que não queria... - proferiu por entre algumas fungadelas. -Estou a falar a sério, desculpa-me, eu agi muito mal e vou remediar o que fiz.
Estava completamente perplexa, parecia que de repente ia explodir de fúria ou desatar a chorar, o pedido de desculpas apanhou-me completamente desprevenida, estava num emaranhado de emoções que lutavam para se fazerem expressar mas na verdade eu não conseguia confiar na pessoa que me traiu daquela forma, apesar que uma aliança resolvia os problemas por enquanto.
-Eu preciso de um tempo para pensar... Tu podias-me ter arranjado muitos problemas e a ti também, o que é que te deu na cabeça? Esqueceste-te que tu também lá estavas quando tudo aconteceu? - Proferi, soou quase como uma suave repreensão que era precisamente o contrário do que eu queria.
-Eu sei, desculpa, eu agi de cabeça quente e acabei por te complicar a tua vida e podia ter saído prejudicada com isto também, eu dou-te o tempo que precisares mas pensa nisso, por favor! - ela estava agora a chorar com as mão juntas a implorar pelo meu perdão.
 -Falamos sobre isto outro dia, eu preciso de ficar sozinha. - disse, apaziguando-a.
Ela encaminhou-se para a porta mas parou ao tocar na maçaneta, virou-se para mim e abraçou-me intensificando o choro.
-És a minha única amiga, desculpa tudo o que te fiz passar! - proferiu rouca e soluçando.
Nessa noite passei maior parte do tempo a virar-me compulsivamente de um lado para o outro enrolado e desenrolando os lençóis, sentia uma vontade enorme de explodir, não sei se era de raiva ou se era de alivio, talvez ambos.

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